
O combate contra dengue, zika e Chikungunya ganhou uma grande aliada. Inaugurada em Curitiba, a Fábrica de Mosquitos da Wolbito do Brasil deve produzir cerca de 100 milhões de ovos por semana.
Pode parecer coisa de filme, mas a ciência por trás dessa novidade envolve uma estratégia desenvolvida na Austrália, que promete revolucionar o combate dessas arboviroses. Mais do que “matar o mosquito”, ela foca na raiz do problema.
Como funciona a Fábrica de Mosquitos?
A biofábrica se baseio no Método Wolbachia. Nele, são produzidas larvas do mosquito Aedes Aegypti, de maneira controlada por profissionais, e, com uma modificação fundamental, a bactéria Wolbachia.
O microrganismo é inofensivo para humanos, mas quando presente no mosquito, consegue impedir a replicação de arboviroses como dengue, zika e chikungunya. Dessa forma, a população atual do agente vai sendo substituída pela variação não transmissora, mitigando a disseminação.
Uma das grandes vantagens desse método é o fato de que, com o passar do tempo, ele se tornar autossustentável. A população de mosquitos não transmissores se mantém, sem a necessidade de novas liberações.
Até o momento, oito cidades brasileiras já tiveram a estratégia implantada Niterói (RJ), Rio de Janeiro (RJ), Londrina (PR), Foz do Iguaçu (PR), Campo Grande (MS), Joinville (SC), Belo Horizonte (MG) e Petrolina (PE).

A biofábrica da Wolbito do Brasil é considerada a maior do mundo, e fica localizada no Parque Tecnológico da Saúde do Governo do Paraná, em Curitiba. Ela possui mais de 3,5 mil m² de área construída, uma equipe de 70 funcionários, e infraestrutura de ponta que automatiza a criação de mosquitos com a bactéria Wolbachia.
Mosquito pequeno, problema gigante
Apesar de ser um agente pequeno, o Aedes Aegypti é um problema gigante no Brasil. Em 2024, foram notificados 6,6 milhões de casos e mais de 6.000 mortes no Brasil.
Nesse ano, de acordo com modelagens, a previsão é que haja um aumento de casos em pelo menos seis Estados brasileiros, sendo eles: São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Tocantins, Mato Grosso do Sul e Paraná.
Diversos aspectos contribuem para esse cenário de alerta, dentre eles:
· Clima
O clima brasileiro contribui diretamente para o aumento da proliferação.
Segundo o Ministério da Saúde, o aumento da temperatura média e a urbanização desordenada favorecem a expansão geográfica do mosquito, inclusive para regiões antes menos afetadas.
Estudos apontam que, durante fenômenos climáticos como, por exemplo, o El Niño, há um aumento significativo na infestação de larvas do Aedes aegypti.
Além disso, de acordo com o relatório global do The Lancet Countdow com o aquecimento decorrente justamente por conta de mudanças climáticas, a dengue pode aumentar em 37% o seu potencial de transmissão.
· Resistência
Por não ser um problema novo, diversas estratégias já foram utilizadas no combate desse mosquito e seus vetores, dentre elas o uso de pesticidas.
No entanto, com o uso por um período, esse inseto acabou por desenvolver uma certa resistência a determinados tipos de pesticida. Um artigo publicado na revista cientifica “Parasites & Vectors”, revelou, por exemplo, uma nova mutação do Aedes aegypti na Argentina.
Essa é uma questão que vem sendo observada há mais de uma década, e desde a identificação das resistências, novas alternativas têm sido buscadas.
· Infraestrutura precária
Outro fator que contribui diretamente com a proliferação do mosquito é a infraestrutura urbana precária. Falta de saneamento básico, terrenos baldios e coleta de lixo irregular, são alguns dos fatores diretamente ligados a proliferação do mosquito.
Inclusive, estudos apontam que regiões com baixo Índice de Infestação Predial (IIP), são mais vulneráveis a surtos.
· Falta de informação
Apesar da ampla divulgação sobre o combate a dengue e outras arboviroses, a falta de informação continua sendo um gargalo para a Saúde Pública.
Uma pesquisa do IPEC revelou que, apenas 38% dos entrevistados afirmavam que buscavam informações sobre a dengue. Além disso, menos da metade respondeu que lembrada de alguma propaganda sobre a temática.
Em paralelo, 62% dos entrevistados afirmaram que desejam receber mais informações sobre o assunto, e que estão abertos para isso em diversos canais.
De olho no foco: Para além da Fábrica de Mosquitos, o que te sido feito?
A Fábrica de Mosquitos é uma grande inovação que chega para unir forças contra as arboviroses. Mas para além dela, existem várias estratégias que também têm sido de grande ajuda.
Em São Paulo e outas localidades do Brasil, por exemplo, drones têm sido utilizados para auxiliar na vistoria de possíveis criadouros de mosquito. Eles são utilizados para vistoriar imóveis abandonados, ou até mesmo locais de difícil acesso.
Além disso, pesquisadores da UFMG, USP e Universidade de Sheffield (Reino Unido) também têm utilizado da inteligência artificial para auxiliar nesse combate. Eles aprimoraram um software que utiliza IA para identificar focos da dengue, usando como base imagens aéreas.
O papel da comunidade
Para além de estratégias governamentais, a comunidade também tem papel fundamental.
Nesse sentido, a participação ativa da população é essencial para o controle das arboviroses.
Práticas simples como evitar lixo acumulado em áreas externas, eliminar focos de água parada, manter caixas d’água limpas, entre outras atitudes, fazem toda a diferença.
Além disso, essas ações ajudam a quebrar o ciclo de vida do mosquito transmissor.
Essas atitudes, quando somadas, criam um efeito dominó positivo: menos criadouros, menos mosquitos, menos casos e mais saúde.
Por isso, cada pequena ação conta e tem impacto direto na saúde pública.
Dessa forma, com ciência, educação, tecnologia e conscientização, é possível reduzir os índices de proliferação e transformar bairros, cidades e até estados em zonas livres de arboviroses.
Portanto, a luta contra essas doenças é coletiva, e começa dentro de casa.
Referências
Pesquisa IPEC 2021 | Conheça a Dengue
Como as mudanças climáticas estão favorecendo a disseminação do Aedes aegypti — Ministério da Saúde