
Os alimentos ultraprocessados são itens cada vez mais presentes nas casas dos brasileiros. Práticos, baratos, fáceis de encontrar e ocupam um espaço cada vez maior no carrinho de compras. Mas essa conveniência tem um custo alto.
Segundo uma série de artigos publicados e liderados por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), o consumo de desses itens mais que dobrou desde os anos 80.
Hoje, esses produtos já representam cerca de um quarto de toda a alimentação do brasileiro. É um dado que acende um alerta, especialmente quando olhamos para os impactos na saúde e para os riscos que aumentam no fim do ano.
Quais são os malefícios do consumo excessivo de alimentos ultraprocessados?
O excesso de ultraprocessados está associado a uma série de problemas de saúde, alguns imediatos, outros silenciosos e cumulativos.
De acordo com estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Brasil gasta, anualmente, pelo menos R$ 10,4 bilhões com as consequências do consumo de alimentos ultraprocessados para a saúde da população.
Esses custos estão diretamente ligados a tratamentos oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), principalmente relacionados a hipertensão, obesidade e diabetes tipo 2. Além disso, eles também estão conectados a aposentadorias precoces e licenças médicas relacionadas ao excesso de consumo desses itens.
Outro dado importante sobre o assunto é em relação a quantidade de óbitos. Em 2019, no Brasil, cerca de 57 mil mortes foram atribuíveis ao consumo excessivo de alimentos ultraprocessados. Isso equivale a 10,5% do total de mortes no país.
Dentre os estados com maio proporção de mortes por ultraprocessados estão: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.
Esses números por si só já é preocupante, e ainda é necessário considerar que eles não levaram em conta os gastos diretos de todas as doenças associadas a ultraprocessados, nem os custos da população infantil e adolescente, e também não considera o atendimento de atenção primária.
Ou seja, esses R$ 10,4 bilhões são apenas a ponta do iceberg.
O que gerou esse aumento no consumo?
Mas como esses alimentos, que são cada vez mais evidenciados como maléficos, ainda continua fazendo sucesso nas listas de compras? Existem diversos fatores que contribuem para essa popularização, dentre eles:
Conveniência
Com rotinas cada vez mais longas, e menos tempo para cozinhar, os produtos “prontos para comer” acabam se tornando ganhando os brasileiros pela praticidade.
Segundo uma pesquisa da YouGov, cerca de 31% dos consumidores dizem não ter tempo para preparar seus alimentos. Com isso, a tendência é a busca por alimentos ditos “mais práticos”.
Preço aparente mais baixo
De acordo com um levantamento do Nupens-USP, desde 1994, alimentos considerados saudáveis, como os in natura, minimamente processados e ingredientes culinários têm uma tendência contínua de alta nos preços. Em contrapartida, enquanto os não saudáveis vêm barateando.
Em 2018, os alimentos saudáveis custavam, em média, R$ 15,11 e chegaram a R$ 17,43 em 2022. Já os processados caíram de R$ 16,82 para R$ 14,96 e os ultraprocessados diminuíram de R$ 21,78 para R$ 18,60.
Consequentemente, mais brasileiros têm optado por mais itens do gênero nas compras mensais.
Marketing agressivo
Outro fator que contribui diretamente para que os ultraprocessados se tornem “irresistíveis” é o marketing agressivo. Personagens infantis, embalagens chamativas, “selos” de saudabilidade duvidosos como zero açúcar, fit, proteico.
O marketing direcionado que vende esses itens como fáceis, práticos e não tão ruins quanto realmente são acaba conquistando os brasileiros, principalmente o público infantil.
Disponibilidade
Postos de gasolina, supermercados, estações de metrô, aplicativos de entrega, os alimentos ultraprocessados estão presentes em todos os lugares. Em contrapartida, a falta de acesso a alimentos in natura, orgânicos e saudáveis, tem diminuído. Inclusive, já existem conceitos que exemplificam o surgimento de locais com esse tipo de escassez, os chamados desertos e pântanos alimentares.
De acordo com Marcos Anderson Lucas da Silva, doutorando no Programa de Nutrição em Saúde Pública e pesquisador do Nupens, ambos da Faculdade de Saúde Pública da USP, os chamados desertos se referem a locais onde há falta de alimentos essenciais a alimentação humana.
O acesso à itens básicos como arroz, feijão, frutas, verduras e legumes é limitado os até inexistente. Seja por conta de falta de estabelecimentos que forneçam, ou por serem mais afastados de regiões onde os mesmos são produzidos ou cultivados.
Os pântanos, por sua vez, são localidades onde há uma abundância na oferta dos alimentos ultraprocessados. Grandes centros urbanos, onde há, por exemplo, maior volume de fast-foods, lojas de conveniência e lanchonetes, entram nesse conceito.
Um mapeamento realizado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, em parceria com o Grupo de Políticas Públicas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz e a Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz da USP, verificou que por volta de 25 milhões de brasileiros residem em áreas de desertos alimentares, considerando os 91 municípios com mais de 300 mil habitantes analisados.
Isso equivale a mais de 32% do total de população dessas cidades.
O mapeamento também apontou que cerca de 15 milhões de brasileiros vivem em pântanos alimentares.
Por que se atentar as festas de fim de ano e o aumento no consumo de alimentos ultraprocessados?
Final de ano é sinônimo de festas com refeições grandiosas, com grande volume de itens ultraprocessados.
Amigos secretos, confraternizações, ceias antecipadas e até mesmo viagens são momentos onde opções rápidas como salgadinhos, refrigerantes, embutidos, aperitivos industrializados e sobremesas prontas ganham ainda mais espaço.
Além disso, as marcas intensificam campanhas natalinas e de verão, empurrando esses itens para os carrinhos dos consumidores. Isso sem contar na rotina corrida que acaba minando, muitas vezes, as refeições caseiras.
Ou seja, o fim de ano funciona como “janela de risco nutricional”: uma temporada em que aumenta a probabilidade de exagero. principalmente entre crianças e adolescentes.
Para minimizar esse impacto na dieta, que já vem sendo afetada pelos ultraprocessados, é indicado colocar algumas dicas em prática:
- Troque os snacks por itens frescos nos encontros (frutas, castanhas, saladas coloridas, pratos simples);
- Reduza a compra “para estocar” de alimentos ultraprocessados, se está em casa, a chance de consumo sobe;
- Atenção aos “pequenos ultraprocessados” do dia a dia: bebidas açucaradas, biscoitos, molhos prontos, embutidos;
- Planeje refeições rápidas com alimentos de verdade: omeletes, saladas, sanduíches com pão artesanal, legumes assados;
- Para crianças, limite produtos com personagens, embalagens coloridas e “brindes”, são feitos para incentivar consumo automático.
O consumo de ultraprocessados é um fenômeno global, e o Brasil não está fora dessa tendência. Mas conhecer os impactos e reconhecer os momentos do ano em que mais exageramos é um passo essencial para fazer escolhas mais conscientes.
Final de ano é tempo de celebrar, e isso não precisa significar abrir mão da saúde.